Fotojornalista enterrou fotografias com medo de descoberta Nazista

O polonês Henryk Ross era um fotojornalista que vivia e trabalhava na cidade de Lodz, um gueto que só ficava atrás do de Varsóvia, capital polonesa. Assim que os ataques Nazistas começaram, a câmera de Ross foi confiscada,  até que o fotógrafo passou a ser usado para fotografar escravamente para os nazistas.

Após um tempo, Henryk Ross passou a fotografar escondido, com ajuda de sua esposa (vigia) o dia a dia dos judeus, o registro resultou em 6mil imagens. Quando Hitler pretendia acabar com o gueto, matando todos os moradores (em 1944), Henryk (íntima) enterrou todas as fotografias e negativos. Mesmo tendo perdido metade do material por conta da umidade, valeu a pena.

Lodz foi libertada em 1945 da ocupação nazista, o fotógrafo e a esposa estavam entre os poucos menos de mil sobreviventes. Conseguindo escapar dos campos de concentração, doenças, ou simplesmente da fome.

Nem imagino o quão inspirador essas fotos não venham sendo ao longo desses anos. As fotografias, podem, sim, ser uma prova de que algo aconteceu, algo que esteve ali e não está mais. Pessoas, movimentos, mortos, imaginem um mundo sem provas, sem histórias em imagens?

Fonte: Hypenes

Tem Daguerreótipo para finalizar o mês da fotografia

 

Como sabem, o dia 19 de Agosto é o dia internacional da fotografia, então, para finalizar o mês da fotografia (agosto) fiz uma seleção super bacana de fotografias feitas com o famoso daguerreótipo (a primeira câmera fotográfica inventada por Daguerre – 1787 – 1851 pintor e físico francês) por vários fotógrafos de uma época em que a fotografia não era não fácil e nem possuía uma tecnologia leve para se carregar por aí. Então, aproveitamos e vamos fazer uma reflexão sobre nossa época e a fotografia que estamos produzindo, a comunicação que estamos gerando para o nosso tempo.

 

 

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Primeira fotografia que se tem notícia feito pelo seu inventor em 1837.

 

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Boulevard, Paris, em 1839 feito por Louis Jacques Daguerre
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Retratos com daguerre de 1855
Brady foi um fotógrafo que mudou-se para Nova Iorque com 16 anos para estudar daguerreótipo
Brady foi um fotógrafo que mudou-se para Nova Iorque com 16 anos para estudar daguerreótipo
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Índios botocudos retratados pelo daguerreótipos
O daguerreótipo abriu portas para a prática de fotografar entes queridos falecidos como se estivessem vivos
O daguerreótipo abriu portas para a prática de fotografar entes queridos falecidos como se estivessem vivos
 A prática do nú francês também se deu início com a facilidade fotográfica do daguerreótipo
A prática do nú francês também se deu início com a facilidade fotográfica do daguerreótipo

 

Gostaram da seleção? Viram o quão importante o daguerreótipo foi para a história da fotografia? Bem, essa seleção é ainda muito pequena para passar todas essas mensagens. Muitos fotógrafos da época se aproveitaram positivamente dessa prática que tanto amamos. Espero também ajudar àqueles que pesquisam sobre a história da fotografia, sei o quão difícil é achar algumas fotografias com um pouquinho de qualidade e informação reunida assim.

Selfies nem sempre foram do jeito que é, conheça Ni Haifeng

Os hoje conhecidos por Selfies, nem sempre foram realizados da mesma forma que hoje. Não, nem sempre foram do jeitinho que é. Ni Haifeng um artista chinês, que atualmente vive em Amsterdam, resolveu usar o seu próprio corpo como expositor da Porcelana Chinesa que era oferecida pelos Holandeses no mercado Ocidental. Em 1964, o artista conhecido por ser extremamente esquisito (porque será?) resolve fazer os autorretratos, hoje conhecidos por selfies para o registro. Observem que nas tatuagens, não são somente os desenhos das tradicionais porcelanas chinesas, mas também etiquetas de museu e de catálogos.

A história (até mesmo na Wikipédia) sobre Ni Haifeng, é muito restrita. O que encontrei foi em livros sobre fotografia, onde o assunto se restringe sobre a prática dos autorretratos (selfies) na década de 60. Mas, o que me deixa com orelha em pé, é sobre as motivações pelas quais levaram Haifeng a fazer essas tatuagens, que com certeza eram inscrições corporais políticas (pelo pouco que sei da história da China), e quais seriam, ainda, suas reais motivações para expor em estilos selfies.

Se você fizer uma pesquisa agora, rapidinha no google, você vai encontrar vários links para clicar, nada sobre a história, tudo sobre leilões desses selfies que valem uma fortuna no mercado artístico. Essas inscrições corporais culturais políticas que Ni Haifeng fez carrega uma história muito mais densa do que podemos imaginar, mas, a grosso modo, podemos fazer um resumo ignorante: um chinês, que mora em amsterdam, artista, conhecido por suas esquisitices tatuou pelo seu corpo desenhos de porcelana chinesa e ganha uma fortuna vendendo selfies. Não, não pode ficar por aí, não façam esse tipo de julgamento, em nome da história da fotografia!

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Fotobiografia de Richard Avedon

Richard Avedon passou pouquíssimo por aqui, incrível, sempre penso que falo/escrevo demais sobre os fotógrafos históricos. Richard Avedon é daqueles caras que não podem faltar quando for mencionar a história da moda, ou a história da fotografia. Nascido dia 15 de Maio de 1923 (há 92 anos atrás), em San Antonio (Texas), Richard Avedon era filho de fotógrafo russo (Jacob Israel Avedon) – incrível como existiam fotógrafos naquela época – mas, talvez, por falta de faculdades direcionadas naquela época, Richard Avedon optou por estudar filosofia na Universidade de Columbia de Nova Iorque, não chegou a concluir. De acordo com os textos que li, o seu caminho a Nova Iorque foi ainda mais importante do que estudar filosofia.

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Muito provavelmente, Richard Avedon já sabia o que queria. Com apenas 18 anos, tornou-se co-editor da revista The Magpiecom uma pausa entre seus 19 e 21 anos (anos em que cumpriu serviço militar – típico estilo americano), e foi estudar em New School for Social Research.  Aos 22 anos já era fotógrafo da Harper’s Bazaar, e antes de completar 27 anos já tinha fotografado para revista Vogue.  E quando a gente pensa que sua história havia acabado, é aí que ela começa; aos 37 anos, Richard Avedon dirigiu a fotografia e trabalhou como consultor visual do filme Funny Face (de Stanley Donen), filme que foi nomeado a 4 Óscar’s da academia de Hollywood (um filme que tinha somente Audrey Hepburn e Fred Astaire nos papeis principais).

Incrível como as coisas aconteceram para Richard Avedon, na verdade, não tão incrível assim, ele tinham mesmo o famoso don da fotografia. Aos 35 anos, já tinha sido nomeado pela Popular Photography como um dos 10 melhor fotógrafos do mundo. Que fotógrafo com essa idade já alcançou essa nomeação nos dias de hoje? E pensar que só faltam 5 anos para eu chegar nessa idade e ainda (AINDA) nem pisei na Vogue NY.

O seu trabalho passou a ser desejado, desejado pelas maiores marcas do mundo fashion, desejado pelas principais celebridades e, claro, pelas revistas. Todos queriam ser clicados pelo Richard Avedon. Mas não foi só disso que se tratou o seu trabalho; ele também se dedicou a movimentos antiguerra, aos 37 anos, fotografou no Vietnan aos 47 anos. Livros publicados, muitas exposições. Richard Avedon teve uma vida bastante agitada, desde o momento em que deu seus primeiros passos, até o momento de seu falecimento.

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A fotografia mais conhecida de Richard Avedon foi a intitulada “Dowima with Elephants” de 1955.

No dia 01 de Outubro de 2004, 81 anos enquanto fazia um trabalho para a revista The New Yorker, onde fassou messes fotografando celebridades e políticos da época, Richard Avedon sofreu um derrame cerebral que causava sua morta. Na sua cidade natal, San Antonio.

avedon_01ele2vv3richard-avedon-photographing-the-soul-1366521345_bRichard-Avedon-Place-de-la-Concorde“A fotografia é uma arte triste, pois perece, mas ainda assim permanece.” Richard Avedon

http://www.avedonfoundation.org/

Fotobiografia de Ansel Adams

Ansel Adams para reinaugurar a categoria Fotobiografia aqui no #tnf, a primeira do ano. Já não lembro mais qual foi a última fotobiografia publicada, o que importa é que estamos de volta com histórias de fotógrafos renomados da história da fotografia. E quando se trata de história da fotografia, Ansel Adams é uma ótima escolha.

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Ansel Adams: O principal fotógrafo da Natureza

Americano, nascido em São Francisco no dia 20 de Fevereiro de 1902, Ansel Adams era um auto didata, aprendia tudo sozinho. Filho de um homem de negócios (Charles Hitchcook), acabou tendo acesso a tecnologias e novidades ainda muito cedo. Aos 14 anos, fez sua primeira fotografia no Parque Nacional de Yosemite nos Estados Unidos, em uma viagem com a família usando uma Kodak Nº 1(que ganhou dos seus pais), e desde então, Ansel Adams já não parava de clicar. Todos os anos, Ansel Adams estava lá, no mesmo parque Nacional, e é por isso que é lá que se encontra a Galeria fixa do fotógrafo até hoje!

O sucesso do fotógrafo americano Ansel Adams aconteceu ainda muito cedo, nos seus 17 anos, em 1919 quando resolve entrar para um grupo de associados à ecologia Sierra Club, a partir daí, ele se encontra com o que mais gosta de fotografar: a natureza. Os fenômenos naturais, as paisagens, as águas, era tudo o que Ansel (a íntima) gostaria de descobrir com suas lentes. Eu imagino como era desafiador fotografar tudo aquilo com equipamentos ainda em desenvolvimento. Assim como imagino, também, que edições com sobreposições de frames negativos era uma de suas práticas (como a lua ficava tão nítida e tão grande em suas paisagens?).

Ansel Adams era também um pianista, aprendeu a tocar piano muito cedo, e sempre ficava entra a música e a fotografia. Mas o seu principal desafio era experimentar as coisas, as técnicas, a arte. Em uma época em que a arte (em se tratando das artes tradicionais da época – pintura e escultura) se voltava contra os fotógrafos (longa história), ele pretendia testar a capacidade artística das fotografias. Tanto a estética quanto técnicas, eram seu principal foco. Os efeitos com velocidade baixa, ‘véu de noiva”, máxima profundidade de campo, teorias da “fotografia reta” com bastante nitidez estavam diretamente envolvidos com Adams e os grupos envolvidos.

O americano não se fixava a um só tipo de equipamento, ele queria experimentar as várias (que não eram muitos como nos dias de hoje) ferramentas fotográficas e ver quais técnicas se adequava a quais equipamentos. Diferente de Henry Cartier-Bresson e Diane Arbus que tinham seus equipamentos favoritos (Leica e Mamiya c-33 BI respectivamente). Da mesma forma, Ansel Adams não queria ver a sua fotografia pronta em um só clique, ele queria elaborar todo um processo para criar uma fotografia esteticamente perfeitas. O fotógrafo que faleceu com o seu reconhecimento merecido (dia 22 de Abril de 1984), viveu em uma época perfeita para a suas realizações. Hoje em dia, os profissionais da fotografia querem praticidade, muitos nem conhecem câmeras analógicas ou testaram suas ferramentas disponíveis. O comodismo reinou e decretou fotografia como uma prática social e profissional, não artística.

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Site oficial de Ansel Adams:  http://www.anseladams.com/ 

 

 

O tempo do fotógrafo

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Cena do filme “Criação” (2009) – Enquanto Annie está sendo fotografada às antigas, seu pai, Darwin explica o processo de captura da imagem.

O tempo do fotógrafo mudou. Mas não só o tempo para/do fotógrafo, como o tempo para/das as pessoas. Antes o tempo era algo que podía-se aproveitar, algo em que podía-se pensar sobre, avaliar antes de dar um próximo passo, e quem sabe repetir a mesma atividade por várias e várias vezes. A velocidade dos minutos de antes, dava tempo suficiente para trabalhar, passar um tempo com a família, amigos, filhos, e até desperdiçar tempo. Afinal, o desperdício de tempo de antes, não era considerado dessa forma, visto que o tempo estava alí para isso. Claro que estou falando em forma de metáfora, mas as referências se encaixam perfeitamente na realidade.

Existem várias formas de interpretar o tempo, para cada faculdade vai haver um conceito, uma dinâmica variável para interpretar. Da mesma forma, em cada profissão vai ter a sua forma de conceiturar o tempo. Para os fotógrafos, assim como na maioria das profissões criativas, o tempo para trabalhar, é um tempo para criar. Até chegar no momento de criar, leva um momento de pensar, refletir e decidir. Deixando claro, que aqui, estou apenas falando do tempo da prática do registro fotográfico profissional. Dentro desses minutos dedicados ao simples click, existe o tempo social, aquele dedicado ao conhecimento, a própria existência, experiência e reflexões pessoais.

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Pintura de Monet, intitulada Bathing at la grenouillere

A dedicação em construção de experiências acabou. Quanto mais maior e mais importante é um fotógrafo, menos tempo e capacidade de construção de experiências ele vai ter. Observando a minha própria rotina – e ainda nem sou uma fotógrafa importante – percebo que ao sair de uma pauta, mal tenho tempo para absorver o que havia de bom nela e já tenho que correr para outra. A própria reflexão sobre isso pode causar estranhamento, incerteza e até falsos julgamentos, por isso, muitos preferem não pensar sobre.

 O Tempo no trabalho era um tempo para contar.

Walter Benjamin

 A esperança está na leitura, no esclarecimento de idéias. Para a possibilidade de um melhor entendimento sobre o antes, o agora, o tempo, a experiência e os procedimentos, é necessário muito estudo e dedicação. Além disso, é bom planejar uma organização do tempo, para um melhor aproveitamento dele.

Fotografia da ostentação, a sociedade agradece

 

Milhares e milhares de fotografias são publicadas por minuto. Seja pelo instagram, pelo facebook ou qualquer outro aplicativo social que vincule imagem. Estamos falando de muitas fotografias que juntas, compõem o imagético diário de muitos consumidores de imagens (que muitas podemos considerar vazias). A fotografia da ostentação, ou fotografia luxuosa (luxuosa foi só um termo que acabei de encaixar) ganhou o seu lugar nas redes, marcou seu território e não perde para mais ninguém. E é ela o principal foco dessas milhares de publicações instantâneas.

lily-lustosa-0702-temnafotografiaFotografia de Lily Lustosa, da seleção de Fotografias da Semana

Dentre tantas outros meios de comunicação sem muitos conteúdos, essas fotografias são apenas um reflexo de tudo o que consumimos, de tudo o que absorvemos dia após dia diante de tantos ruídos emitidos, falhas de um sistema que jamais volta atrás, que provavelmente tem como principal objetivo alienar seus espectadores, aliados a todo um esquema sócio/político que a maioria da nossa população absorve sem nunca questionar.

Não quero parecer rude, até porque eu mesma adoro me fotografar com meu esposo, retratar a comidinha que fiz para o jantar, meus animais queridos, algumas decorações novas que fiz em minha casa e coisas que para muitos, podem parecer fúteis, mas para que serve a fotografia se não para registrar os momentos marcantes da vida? O que não podemos parar de observar é que em muitas imagens, podemos perceber os valores completamente invertidos fazendo parte marcante desse grupo de categorias que são publicadas a todo instante. Tento ser específica, mas não é assim que funciona. Trata-se de uma sociedade que foi adaptada para receber imagens luxuosas. Como as casas humildes dos protagonistas das novelas, propagandas de carros, incapazes de absorver óperas, teatros e exposições de arte.

As primeiras câmeras fotográficas analógicas fabricadas em massa, em valor barato, para uso em extensão da população foram as câmeras “lomo” que eram (são) feitas de material barato, pequenas e de fácil manuseio, com o objetivo de que todos se fotografassem, se documentassem, registrassem a realidade de uma belle epoque que estava acontecendo no mundo inteiro. E assim essa prática continua pelos dias de hoje, em uma vida bem mais conturbada com muito problemas rotineiros, político e sociais, vem a seguinte questão: Essas fotografias vazias são um reflexo de uma fuga da sociedade diante de tantos conflitos (psicológicos, sociais, políticos e profissionais), ou é o simples fato de uma atitude alheia em massa a tudo o que é conciso e sério?

Pense e me responda.

A fotografia etnográfica documental de Dori Caspi

A fotografia etnografica consiste no registro documental cuja participação inloco do fotógrafo é imprescindível para o trabalho final. A união da documentação participativa com a fotograda é o que da consistência ao resultado desse tipo de registro. O fotógrafo Dori Caspi  conciveu durante 10 anos com a tribo Himba (africana) que está prestes a desaparecer, registrando seus costumes, suas intimidades, seu cotidiano.

Durante todo esse tempo, Caspi, o fotógrafo israelense criou um vínculo com cada integrante do grupo, criou um vúnculo com a sua história. A sua câmera acabou servindo (apesar de nunca ter sido seu objetivo principal, conta) como ferramenta de pesquisa, antropológica. Hoje, essa tripo sobre seu desgaste territorial com estradas sendo contruídas e desgastes fisiológicos enfrentando doenças como AIDS.

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Pela pouca experiência que tenho com a fotografia etnográfica, imagino o quão grandioso e enriquecedor (no melhor dos sentidos)  é e foi para o Dori Caspi ter tido ao participar como ferramenta de valorização dessa etnia que pode ficar para sempre somente gravado na história. Seu olhar subjetivo é o que marca e valoriza e se mistura por toda essa história.

O Instagram está acabando com a fotografia

 

O Instagram/ ​​Hipstamatic/ Snapseed são a antítese da criatividade, e fazem com que todas as imagens tenham a mesma aparência.

por Kate Bevan 
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Pode parecer estranho começar uma crítica dizendo o quanto amo alguma coisa, mas eu amo a fotografia e particularmente amo a forma como as redes sociais significam que eu posso compartilhar as minhas imagens e posso acompanhar meus amigos através das imagens que eles compartilham.

Mas eu definitivamente não gosto do Instagram, o aplicativo que milhões de pessoas parecem preferir. De fato, o Facebook ama tanto o Instagram que está oferecendo US$ 1 bilhão (£ 637m ) para comprá-lo (assumindo que o Office of Fair Trading do Reino Unido não bloqueará a transação, é claro).

Todos os dias os meus feeds de notícias do Twitter e do Facebook estão cheios de imagens do Instagram, todos ostentando os bonitinhos filtros imitando Polaroids e bordas brancas irregulares adicionadas pelo APP para iPhone ou Android.

Ou, mais recentemente, o tilt-shift, que faz tudo na imagem parecer com uma cidade de brinquedo.

Não é só sobre o Instagram – outros softwares produzem os mesmos efeitos: Hipstamatic, Snapseed e, claro, os profissionais: Gimp, Photoshop e Lightroom.

Para mim, esses filtros estragam as fotos: eles atrapalham a imagem e distorcem a história que ela tenta contar. É chocante ver uma fotografia tirada alguns segundos atrás, no verão de 2012, que se parece com uma imagem da minha infância (sou da geração de 60).

E eles são um retrocesso. A tecnologia digital é incrível: você pode tirar fotografias surpreendentemente boas com o seu telefone nos dias de hoje. As lentes não são ruins, os sensores são OK também, e ainda assim nós parecemos querer voltar aos dias em que usávamos primitivas câmeras de 2 megapixels ou digitalizávamos antigas fotos de família.

A fotografia é um meio criativo. Recentemente passei uma manhã fascinante em um debate organizado pela Adobe questionando se o digital é somente tecnologia e nenhum talento. A resposta é não, é claro: há uma quantidade enorme de criatividade estimulada pelo software.

Atualmente não é apenas sobre as habilidades técnicas de controle de exposição e as habilidades artísticas que envolvem a composição, nem sobre as horas gastas no quarto escuro para produzir ampliações. Você pode criar imagens extraordinárias usando um software, e eu adoro as possibilidades que os softwares trazem para as imagens.

Eu sou uma fotógrafa amadora experiente, que tem idade suficiente para ter aprendido a arte da fotografia em uma antiga Pentax KX (que ainda tenho). Passei horas na quarto escuro aprendendo a revelar um filme preto e branco e criar ampliações em preto e branco.

Fiz cedo a transição, comprando minha primeira câmera digital em 1999, e não olhei para trás. Hoje uso uma Nikon D80 com uma lente 12-24mm e processo minhas imagens no Lightroom, muitas vezes trabalhando muito com as cores, contraste, exposição, saturação e outros parâmetros para obter o efeito que tenho em mente.

Mas para mim, o Instagram/ ​​Hipstamatic/ Snapseed etc. são a antítese da criatividade. Eles fazem todas as imagens terem a mesma aparência. Não necessitam de elaboração ou impulso criativo: um clique e está feito.

Há uma discussão interessante que sugere que o objetivo é fazer com que as nossas fotografias se destaquem entre os zilhões de imagens que são publicadas todos os dias: estamos lutando por autenticidade em uma época em que a grande quantidade de imagens, por definição, desvaloriza nossa fotografia?

Minha família tem uma série de álbuns de fotos de nossos antepassados, todos legendados e datados, que remonta ao século 19. A coisa surpreendente sobre fotografias antigas é a sua raridade: temos uma imagem da mãe da minha avó, que nasceu em 1840, e nós a valorizamos porque é insubistituível.

No entanto, as fotografias das minhas sobrinhas, suas tataranetas, são numerosas demais para contar. Quando você se depara com um volume muito grande de imagens, é tentador querer destacá-las da multidão e adicionar um filtro em apenas um clique aparentemente tem este efeito.

Além disso, adicionando uma falsa aparência de idade nestas fotos, na verdade também adicionamos uma história, uma longevidade à imagem que ela intrinsecamente não possui.

Mas, mesmo nesta era digital, cada imagem é especial, é preciosa, tem um significado, conta uma história . Cada imagem captura um momento no tempo – um casamento, um filho, um amigo fazendo uma cara bobo, o gato caçando um rato. Eu nunca vou parar de tirar fotografias, e nunca vou parar de compartilhá-las, e espero que você nunca pare de fazer isso também, todos vocês.

Para mim, o segredo de uma boa fotografia está na edição. Digital significa que podemos tirar centenas de fotos e escolher a melhor para compartilhar. Isto significa que podemos brincar com elas: podemos cortar a placa de trânsito à esquerda, podemos remover o ex-namorado da foto da festa, podemos melhorar e manipular cores, contraste, exposição para fazer uma melhor imagem ou transformá-la em algo além da captura cotidiana de um momento. Fotografias contam histórias; a pós-produção acrescenta a estas histórias.

Mas, como cada momento é diferente, assim também eu acho que são imagens destes momentos. Colocar um simples filtro faz com que todas possuam a mesma aparência, atrapalha e estraga a fotografia. Eu acho que é uma vergonha.

publicado por Kate Bevan in The Guardian, Julho, 19 2012
 
 
[Encontrar artigos de pessoas que pensam a fotografia é uma coisa rara. Em português então… É por isso que a partir de hoje e, de tempos em tempos, traduzirei artigos que me pareçam interessantes e os compartilharei com vocês aqui no blog. A ideia é explorar a visão de outras culturas sobre a fotografia hoje e suas implicações e prover acesso a ela para todos que não dominam o inglês ou o espanhol. Só não posso prometer artigos em mandarim ou russo, infelizmente.
Traduzo e compartilho únicamente artigos públicos, citando os devidos créditos e fontes. Se alguém se sentir lesado por ter seu texto traduzido e publicado, favor entrar em contato comigo através do email na guia TEM COLABORADORES e o mesmo será retirado do ar.
I just translate and share articles solely public, citing proper credit and sources. If someone feels wronged by having your text translated and published, please contact me via email on tab TEM COLABORADORES in the top of the blog and it will be removed.GC]

A memória dos retratos de família – O que uma fotografia pode fazer por você?

A fotografia desempenha, hoje, um grande papel na sociedade ocidental moderna. E não falo só via internet e meios de comunicação, falo na vida analógica de todos nós, na palpável, na concreta, na vivível. Quando falamos de fotografia e sociedade também estamos falando de memória, uma memória que antes estava diretamente ligada as longas narrativas de nossos avós, bisavós e algumas vezes, pais.

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O estilo de vida de hoje mudou, o tempo é um inimigo das relações pessoais, da vida social e consequentemente do resgate dessa memória. Memória essa que deveríamos buscar no presente, nas narrativas de agora, nossa história do passado. É incrível isso, né? E com toda essa mudanã no estilo de vida, acabamos não dando atenção como deveríamos para essa contrução de uma linguagem narrativa da memória.

Lembro muito bem, quando eu era criança, todos os dias pela manhã quando meu pai me levava para a escola, ía contando milhares de histórias sobre sua vida, de sua família e de seus amigos. Lições de vida, contos, fatos e mitos que jamais saberei ao certo o que realmente aconteceu. Quando nasci, meu pai já tinha seus 40 anos então teve uma relação pai/avó que fez muita diferença.

Na maioria das vezes, eu nem gostava daquelas histórias, muitas nem pareciam fazer sentido, sem conexão com nada que eu havia pensado na vida (só pensava em brincar), mas, por ver sua empolgação e interesse ao me contar, fazia carinhas de interesse que eu sabia que ele ficaria feliz. O tempo foi passando, as histórias se repetiam, as formas de contar em algumas vezes mudaram, em outras não mudou nenhum pouco, com a mesma linguagem e mesma estratégia, só que foram comeãndo a fazer sentido pra mim, os contos e fatos foram criando um vínculo com a minha história.

Meu pai continua presente e sempre que ele tem a oportunidade ele conta todas as histórias de novo, mas a vida mudou, eu casei, e a vida corrida, minha e dele não deixa nos encontrar com frequencia como gostaríamos. O que me conforta são as fotografias, é saber que posso pegar alguns pedaços de papel com imagens fixadas que contam milhares de histórias. Que eterniza essa memória.

A fotografia serve de consolo e suporte de memória para mim, para muitos ela é a única memória, muitos tem em casa milhares e milhares de fotografias que não dizem nada. Porque não tiveram a chance que eu tive de ouvir histórias, não só do meu pai, como também da minha tia, minha vó, e ainda hoje, minha mãe e minhas tias.

Na tentativa de recordar o não contado, pessoas até inventam histórias, contam e até recriam acontecimentos a partir dessas fotografias de família. Forjadas ou não a fotografia é a revelação de acontecimentos da história de uma determinada pessoa que provavelmente se importa com essa memória. Uma memória eternizada.