O Instagram está acabando com a fotografia

 

O Instagram/ ​​Hipstamatic/ Snapseed são a antítese da criatividade, e fazem com que todas as imagens tenham a mesma aparência.

por Kate Bevan 
instagram TNF

Pode parecer estranho começar uma crítica dizendo o quanto amo alguma coisa, mas eu amo a fotografia e particularmente amo a forma como as redes sociais significam que eu posso compartilhar as minhas imagens e posso acompanhar meus amigos através das imagens que eles compartilham.

Mas eu definitivamente não gosto do Instagram, o aplicativo que milhões de pessoas parecem preferir. De fato, o Facebook ama tanto o Instagram que está oferecendo US$ 1 bilhão (£ 637m ) para comprá-lo (assumindo que o Office of Fair Trading do Reino Unido não bloqueará a transação, é claro).

Todos os dias os meus feeds de notícias do Twitter e do Facebook estão cheios de imagens do Instagram, todos ostentando os bonitinhos filtros imitando Polaroids e bordas brancas irregulares adicionadas pelo APP para iPhone ou Android.

Ou, mais recentemente, o tilt-shift, que faz tudo na imagem parecer com uma cidade de brinquedo.

Não é só sobre o Instagram – outros softwares produzem os mesmos efeitos: Hipstamatic, Snapseed e, claro, os profissionais: Gimp, Photoshop e Lightroom.

Para mim, esses filtros estragam as fotos: eles atrapalham a imagem e distorcem a história que ela tenta contar. É chocante ver uma fotografia tirada alguns segundos atrás, no verão de 2012, que se parece com uma imagem da minha infância (sou da geração de 60).

E eles são um retrocesso. A tecnologia digital é incrível: você pode tirar fotografias surpreendentemente boas com o seu telefone nos dias de hoje. As lentes não são ruins, os sensores são OK também, e ainda assim nós parecemos querer voltar aos dias em que usávamos primitivas câmeras de 2 megapixels ou digitalizávamos antigas fotos de família.

A fotografia é um meio criativo. Recentemente passei uma manhã fascinante em um debate organizado pela Adobe questionando se o digital é somente tecnologia e nenhum talento. A resposta é não, é claro: há uma quantidade enorme de criatividade estimulada pelo software.

Atualmente não é apenas sobre as habilidades técnicas de controle de exposição e as habilidades artísticas que envolvem a composição, nem sobre as horas gastas no quarto escuro para produzir ampliações. Você pode criar imagens extraordinárias usando um software, e eu adoro as possibilidades que os softwares trazem para as imagens.

Eu sou uma fotógrafa amadora experiente, que tem idade suficiente para ter aprendido a arte da fotografia em uma antiga Pentax KX (que ainda tenho). Passei horas na quarto escuro aprendendo a revelar um filme preto e branco e criar ampliações em preto e branco.

Fiz cedo a transição, comprando minha primeira câmera digital em 1999, e não olhei para trás. Hoje uso uma Nikon D80 com uma lente 12-24mm e processo minhas imagens no Lightroom, muitas vezes trabalhando muito com as cores, contraste, exposição, saturação e outros parâmetros para obter o efeito que tenho em mente.

Mas para mim, o Instagram/ ​​Hipstamatic/ Snapseed etc. são a antítese da criatividade. Eles fazem todas as imagens terem a mesma aparência. Não necessitam de elaboração ou impulso criativo: um clique e está feito.

Há uma discussão interessante que sugere que o objetivo é fazer com que as nossas fotografias se destaquem entre os zilhões de imagens que são publicadas todos os dias: estamos lutando por autenticidade em uma época em que a grande quantidade de imagens, por definição, desvaloriza nossa fotografia?

Minha família tem uma série de álbuns de fotos de nossos antepassados, todos legendados e datados, que remonta ao século 19. A coisa surpreendente sobre fotografias antigas é a sua raridade: temos uma imagem da mãe da minha avó, que nasceu em 1840, e nós a valorizamos porque é insubistituível.

No entanto, as fotografias das minhas sobrinhas, suas tataranetas, são numerosas demais para contar. Quando você se depara com um volume muito grande de imagens, é tentador querer destacá-las da multidão e adicionar um filtro em apenas um clique aparentemente tem este efeito.

Além disso, adicionando uma falsa aparência de idade nestas fotos, na verdade também adicionamos uma história, uma longevidade à imagem que ela intrinsecamente não possui.

Mas, mesmo nesta era digital, cada imagem é especial, é preciosa, tem um significado, conta uma história . Cada imagem captura um momento no tempo – um casamento, um filho, um amigo fazendo uma cara bobo, o gato caçando um rato. Eu nunca vou parar de tirar fotografias, e nunca vou parar de compartilhá-las, e espero que você nunca pare de fazer isso também, todos vocês.

Para mim, o segredo de uma boa fotografia está na edição. Digital significa que podemos tirar centenas de fotos e escolher a melhor para compartilhar. Isto significa que podemos brincar com elas: podemos cortar a placa de trânsito à esquerda, podemos remover o ex-namorado da foto da festa, podemos melhorar e manipular cores, contraste, exposição para fazer uma melhor imagem ou transformá-la em algo além da captura cotidiana de um momento. Fotografias contam histórias; a pós-produção acrescenta a estas histórias.

Mas, como cada momento é diferente, assim também eu acho que são imagens destes momentos. Colocar um simples filtro faz com que todas possuam a mesma aparência, atrapalha e estraga a fotografia. Eu acho que é uma vergonha.

publicado por Kate Bevan in The Guardian, Julho, 19 2012
 
 
[Encontrar artigos de pessoas que pensam a fotografia é uma coisa rara. Em português então… É por isso que a partir de hoje e, de tempos em tempos, traduzirei artigos que me pareçam interessantes e os compartilharei com vocês aqui no blog. A ideia é explorar a visão de outras culturas sobre a fotografia hoje e suas implicações e prover acesso a ela para todos que não dominam o inglês ou o espanhol. Só não posso prometer artigos em mandarim ou russo, infelizmente.
Traduzo e compartilho únicamente artigos públicos, citando os devidos créditos e fontes. Se alguém se sentir lesado por ter seu texto traduzido e publicado, favor entrar em contato comigo através do email na guia TEM COLABORADORES e o mesmo será retirado do ar.
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Mundo-imagem

A fotografia contemporânea como hábito social

Extensamente atacada a princípio, considerada parricida, em relação a pintura e predatória, em relação as pessoas, e rotulada de atividade puramente mecânica, hoje a fotografia encontra-se extremamente conceituada no cotidiano e nas artes. Neste ensaio me limitarei a esmiuçar sua importante função social de registro da experiência.

Hoje “…existem à nossa volta muito mais imagens que solicitam nossa atenção. O inventário teve início em 1839, e, desde então, praticamente tudo foi fotografado, ou pelo menos assim parece”. Fotografar tornou-se o meio mais popular de registro de um acontecimento, porém  “um modo de atestar a experiência, tirar fotos é também um modo de recusá-la – ao limitar a experiência a uma busca do fotogênico, ao converter a experiência em uma imagem, um suvenir”. O ato de reagir substitui-se ao ato de fotografar “A fotografia tornou-se um dos principais expedientes para experimentar alguma coisa, para dar uma aparência de participação” uma vez que “uma foto equivale a uma prova incontestável de que determinada coisa aconteceu”. Aqui o princípio abandona a experiência em si e se concentra na captura de registros de um passado não propriamente sentido ou experimentado, onde os variados acontecimentos, por sobreposição, se resumem a “um Evento: algo digno de se ver, e portanto, digno de se fotografar”, recusando assim estabelecer relação direta com os mesmos, agora mediada pela câmera: “Fotografar estabeleceu uma relação voyeurística crônica com o mundo, que nivela o significado de todos os acontecimentos” limitando e igualando as sensações proporcionadas pelos mais diversos tipos de acontecimentos dotando-os, paradoxalmente, de uma certa insensibilidade.

Esse imenso relicário pessoal de cada um de nós, talvez, porém, tome forma por meio de um anseio de preservação de um passado em via de desaparecer, o nosso próprio passado, visto que, “uma fotografia é tanto uma pseudo-presença quanto uma prova de ausência”, na medida em que mudanças ocorrem numa velocidade antes impensável, a fotografia preserva um estado, um momento que amanhã pode (e irá) deixar de existir. “Enquanto pessoas reais estão no mundo real matando a si mesmas ou matando outras pessoas reais, o fotógrafo se põe atrás de sua câmera, criando um pequeno elemento de outro mundo: o mundo-imagem, que promete sobreviver a todos nós”. O mundo-imagem permite que tudo coexista, de certa forma, ao mesmo tempo, dentro de seus limites: todo o presente e aquele “referente fotográfico, não a coisa facultativamente real a que remete uma imagem ou um signo, mas a coisa necessariamente real que foi colocada diante da objetiva, sem a qual não haveria fotografia”. É justamente essa pseudo-presença do referente fotográfico que afasta o fotógrafo ocasional da experiência, e que o permite criar um novo mundo, ao capturar várias partes da realidade, tem a ilusão de possuir uma parte do passado.

Entretanto, a fotografia contemporânea como hábito social ampliou seu interesse para além deste simples anseio, e foi durante a última década levado à ostentação: sentimos a necessidade de compartilhar nossa experiência, nosso passado, e expomos, de bom grado, nossas preferências, costumes e personalidades, o que pode levar a crer que “…autopublicar-se, autoexibir-se, autopromover-se, essa redundância reflexiva, equivale a se vender,  (…) a deixar de ser sujeito para se tornar objeto”, objetivando, talvez, a caracterização de uma individualidade, o que, a saber, “resulta sempre em mais anonimato, na indiferenciação das diferenças e das individualidades”, justamente por essa capacidade que tem a câmera de nivelar toda a experiência, que também apresenta outras consequências de interesse maior por parte do fotógrafo, que serão discutidas mais tarde. Nos tornamos, finalmente, “turistas na realidade do outros e, por fim, em nossa própria realidade”.

De certo modo, este artigo se assemelha a um manifesto contra a fotografia, mas me proponho tão-somente a debate-la em seu aspecto social e, é claro, não estamos levando em conta agora o mérito da fotografia como linguagem de entendimento universal, tendo potencial não somente de informar mas gerar discussão e conhecimento, como, do mesmo modo, desejo, nostalgia ou até, na pior das hipóteses, desgaste moral.

SONTAG, Susan. Sobre fotografia. Companhia das Letras, 2004

BARTHES, Roland. A câmara clara. Nova Fronteira, 2011

CARVALHO, Bernardo. Revista Zum, 1. IMS, 2012