Tem Na Fotografia em entrevista com José Bezerra

Há três meses, tive o prazer de compartilhar com vocês O olhar fotojornalístico de J.B. Segundo, com as minhas pequenas sensações e as lindas fotografias em P&B que me inspiraram naquele dia, hoje, trago à vocês uma entrevista com José Bezerra, um fotógrafo viajante (descrição de seu portfólio) nascido na cidade de Mossoró do Rio Grande do Norte (pertinho de mim), que acabou aprendendo a absorver as suas experiências de forma documental e fotográfica, o que o tornou um grande profissional da fotografia e principalmente, um grande humanista da fotografia.

Para mim, entrevistar é conhecer, é aproximar, e é com grande prazer que o divido com vocês um pouquinho desse grande e rico artista fotográfico que conta um pouco da sua história e que deixa um recado para quem deseja iniciar sua carreira na vida profissão fotografia.

entrevista com Jose Bezerra
Entre o lúdico e o real – Foto: José Bezerra

Entrevista com José Bezerra Segundo

 1) JB, Como você iniciou na fotografia?

Iniciei a fotografia durante um momento em minha vida onde buscava uma linguagem de expressão. Comecei a fotografar em 2008, quando comprei um celular. Me dediquei a estudar formas e texturas em detalhes. Posteriormente, descobri que esse exercício é conhecido por miksang. Um ano mais tarde, decidi comprar uma câmera, modelo superzoom da Fuji, a S4000. Apesar de bem limitada, esta câmera me permitiu evoluir bastante. Passei a ganhar alguns concursos. O dinheiro dos prêmios passou a custear viagens e equipamentos. E isso tem me permitido manter uma linha totalmente autoral, independente. No passado, investi muito tempo na captura de paisagens. Mas foi no ser humano que descobri uma outra fotografia. Atualmente uso uma Canon 60D, com lente 17-50mm f2.8 da Tanrom. Um conjunto leve e que me fornece qualidade suficiente para documentar este trabalho. Procuro sempre a simplicidade, inclusive no equipamento. Não uso filtros, nem para-sol. Gosto de trabalhar a luz natural e sombras que tornem a fotometria desafiadora. Como caminho bastante, principalmente quando estou em comunidades ou povoados, o peso é um fator crítico. Enfim, levo somente o essencial.

2) Podemos afirmar que existem influências fotojornalísticas no seu trabalho? 

Hoje estou imerso na temática humana. Tenho influência motivacionais pelos trabalhos e filosofias dos fotógrafos humanistas, Sebastião Salgado e João Roberto Ripper. Dois mestres que influenciam diretamente na forma como hoje lido com as pessoas. Já trabalhei em redação de jornal, mas não como fotógrafo. Fui repórter de rua, entrevistando pessoas para reportagens escritas num jornal local, em Mossoró/RN. Foi uma época muito importante, de grandes descobertas. Creio que mantive comigo esse viés jornalístico.

entrevista com Jose Bezerra
União pela adversidade – Foto: Jose Bezerra

3) É perceptível que suas fotografias contam histórias, existe um envolvimento com a etnografia na metodologia de documentação fotográfica?

Sim, totalmente. Inclusive, quando estou desenvolvendo temáticas, faço questão de permanecer na casa dos fotografados. Gosto de acompanhar o cotidiano. Principalmente das pessoas mais simples. A essência da simplicidade é o que busco transmitir na estética deste trabalho. Mas para isso é preciso imergir completamente. Pois só considero começar a fotografar quando o sentimento é de aceitação dos fotografados. Compactuo e defendo a visão do grande fotógrafo Araquém Alcântara, onde explicita a necessidade do pertencimento com os lugares e contextos. E isso realmente traz um diferencial tanto no resultado final quanto nas lições e experiências. 

4) As fotografias suas, que tive o prazer de conhecer, foram todas em Preto e Branco, existe algum motivos específico para essa preferência?

Busco expressão. As cores tiram um pouco desta premissa. As cores consome muito processamento do cérebro, fazendo com que a mensagem as vezes seja o menos importante (na minha opinião). Quero enfatizar o momento. E para tal, busco mensagens claras, expressivas em momentos impactantes. Atrativos e que levem o expectador a reflexões introspectivas. O preto e branco é primordial para cumprir esta tarefa.

“A boa fotografia em preto e branco é sempre um excelente exercício a mente. Nos faz transcorrer linhas e formas, tons e expressões. Para no fim, colorirmos com a paleta de nossa experiência.” Jose Bezerra

 

5) Os mais envolvidos na fotografia documental acabam por aflorarem o seu lado mais sensível do ver, ou, acabam se tornando pessoas frias com acontecimentos trágicos, por exemplo, em que vertente você se encaixa?

Não tenho dúvidas que me tornei mais humano. Hoje me considero uma pessoa bem diferente. Antes da fotografia, já mantinha estudos paralelos sobre comportamento humano. A fotografia humana documental, me fez expressar pequenas descobertas práticas de modelos comportamentais. Meu desejo de compreensão é tal que o considero acima da própria fotografia. Neste caso a fotografia é quem se aproveita deste saber para lançar um olhar mais próximo de algo expressivo e que transmitam conteúdo. História, informação. Enfim, me considero um humanista. 

Entrevista com Jose Bezerra
Individualidade em pranto – Foto: Jose Bezerra

6) E dentro desse lado mais humanista, você tem alguma linda história fotográfica para nos contar?

Certa vez, em 2013, estava trabalhando um olhar sobre o dia de finados em minha cidade. Neste dia, o cemitério São Sebastião, localizado no centro de Mossoró, fica repleto de personagens e histórias por todos os lados, assim claro como vários outros lugares. Estava observando as pessoas de uma lado para o outro, buscando algo expressivo. De repente, vejo uma senhora dentada, na base de um túmulo, com um dos braço sobre ele. Ela estava de costas para mim, mais ou menos uns 15 metros de distância. Estava com uma teleobjetiva. Inicialmente não fotografei. Fique admirando o momento e tentando imaginar que tipo de experiência aquela senhora estava passando. Fui tomado por um turbilhão de sentimentos que me levou intimamente as lágrimas. Mesmo sem saber o real, fui tomado por uma emoção que me fez perceber a importância se tentar compreender a história de cada um. Fiz somente uma imagem. Não fui fotografar o túmulo. Resolvi deixá-la em seu pranto, e torcer para que de algum modo aquela experiência a tornasse uma pessoa melhor e mais compreensiva. Talvez, ela até já fosse o suficiente. Resolvi não me aprofundar como reverência a particularidade daquele momento.

7) Sobre existência/experiência do fotógrafo, como você contaria brevemente a sua história (na sua totalidade)?

Um cidadão interessado em ler para expressar a alma humana. Que procura valorizar costumes, pregando a livre mas consciente escolha para os problemas e decisões da vida. Busca na fotografia mostrar um lado interessante, digno e honrado em vários contextos. Deseja engrandecer e motivar as pessoas, a descobrir um vasto e interessante mundo que existe ao nosso redor.

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7) Sabemos que ser fotógrafo nos dias de hoje não está fácil, quais os recados você daria para os leitores que estão se iniciando na profissão fotografia?

Bem, primeiro de tudo responda para si mesmo qual o objetivo de sua fotografia, e até onde você irá por ela? Considero duas perguntas chave para o entendimento e motivações aos iniciantes. Quanto as dificuldades, creio ser algo comum em muitas outras áreas. A maior parte que se sobressai é porque inova, conta histórias visualmente interessantes. Portanto, busque principalmente evoluir o olhar, que o reconhecimento chegará. A internet encurtou o espaço-tempo. Porque não fazemos uso para divulgar o potencial que cada um de nós tem para enxergar com diferencial? Podemos, todos.

8) Para finalizar, JB, qual o objetivo da sua fotografia e até onde você iria por ela? (achei muito interessante essa sua obervação).

 Hoje o objetivo deste trabalho é valorizar os personagens que nos passam grandes ensinamentos. Procuro as respostas e os personagens num mundo mais simples, onde o ruído causado pelo mau uso das tecnologias não afetou o pensamento negativamente. Sou formado na área tecnológica, mas reconheço que o mau uso tem tornado muitos jovens confusos diante do mundo ao qual estão inseridos. Costumes como o valor da palavra, o compromisso com a idoneidade, a preservação de uma saúde mental é o foco maior atualmente. Eu irei por ela onde seja necessário. Para se ter uma ideia dos paradigmas, eu era uma pessoa extremamente introspectiva. Não gostava de me relacionar com muitas pessoas, e normalmente vivia num universo onde a área limítrofe era muito curta, limitada. Devido a necessidade de fotografar o ser humano em meio ao seu cotidiano, ampliei os horizontes aproveitando muito dos conhecimentos que adquiri sobre comportamento humano. Curiosamente, mesmo sem apreciar interações, desde a adolescência pesquiso sobre comportamento e psicologia. A fotografia me levou a estudar também a Comunicação Não-violenta (CNV). Com base nesse método pude compreender como adentrar no mundo das pessoas sem ser visto como um invasor, forasteiro. Passei a cultivar amizades, viver experiências reais, a fim de poder transmitir com maior profundidade parte da complexidade que um ser humano possui. Procuro fazer isso de modo claro, prezando por composições simples, dentro de cada contexto particular. Não consigo sempre, pois tudo é incerto quando se trata de momentos espontâneos. Mas em resumo, irei até onde ela exigir de mim. Jamais darei um passo atrás, pois meu maior objetivo hoje é um esforço continuo no desenvolver do olhar. Focando nos bons costumes e na formação de uma mente sadia, humana e com objetivos dignos.  

 

Entrevista com Jose Bezerra
Intimidade – Foto: Jose Bezerra

Depois dessas lindas e ricas respostas da entrevista com José Bezerra Segundo, o que mais podemos fazer se não nos inspirar? São profissionais como esse que me deixam mais fortificada e feliz na área que escolhi, e me deixa ainda mais feliz poder ter esse breve e pequeno contato que estou agora compartilhando com vocês. Aproveitem e sigam seus conselhos.

Veja mais fotografias do José Bezerra:

http://olhares.uol.com.br/jb_segundo/
http://jbsegundo.wix.com/portfolio

Punks, posers, fumaça e um quartilho: a vida no metrô londrino belamente capturada nos anos 1970 e 80

– Bob Mazzer, agora com 65 anos, originário de Whitechapel, east London, narrou uma vida enquanto viajava pela cidade, onde trabalhava como projetor de filmes.

– Usando sua confiável Leica M4 para fazer as fotografias.

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Os rockers estão lá em suas jaquetas de couro com spikes, exibindo orgulhosamente suas tatuagens; assim como os punks e os menos conscientes da moda, passageiros habituais – como uma senhora de meia-idade segurando um litro de cerveja sentada em um banco, numa época em que os pisos nos vagões ainda eram de madeira.
Esse era o cenário no metrô de Londres na década de 1970 e 80, belamente capturadas pela câmera por Bob Mazzer, cuja crônica da vida no metrô foi um acidente feliz.
Agora com 65 anos, Mazzer, de Whitechapel, no East End, costumava ser um projetista de cinema em King`s Cross – um trabalho que o obrigava a ir para casa tarde da noite.
E foi aí que alguns de suas melhores fotografias foram tiradas: de pessoas dormindo nos trens; foliões na cidade, casais se beijando, e jovens pulando as catracas fechadas.

“Eu sentia que o metrô era meu e eu estava lá para tirar fotos. Era como uma festa “, ele disse ao Evening Standard.
Mazzer sempre esteve com sua fiel Leica M4 junto com ele e começou a fotografar à distância.
Mas foi só mais tarde que percebeu que tinha reunido uma verdadeira coleção de imagens da vida no subsolo.

Sua paixão pela fotografia realmente decolou, enquanto ele estudava na Woodberry Down School, aonde tinha um quarto escuro.
Nessa época, ele também começou a frequentar a Saturday Art Club no Hornsey College of Art, onde mais tarde viria a se inscrever.
Foi em 1976 que adquiriu a câmera que usou para capturar suas fotografias subterrâneas – uma Leica M4 preta laqueada com uma lente de 35mm.
Esta foi muito superior a sua câmera Sporty – uma ‘porcaria de câmera pequena de plástico e lata” foi como ele descreveu ao Spitalfieldslife.
Nos primeiros dias, ele usou um Kodachrome 25, um filme lento feito para fotografar à luz do sol.
Mas os resultados falam por si: imagens maravilhosas que remetem a uma época anterior a de um mar de celulares iluminando os vagões.

 

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Publicado originalmente por Nick Enoch, via Daily Mail

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Além da “Pornografia humanitária”

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Campo de refugiados ruandeses de Kibumba (Zaire) em 1994. JAVIER BAULUZ

 

A imagem é uma ferramenta super potente para traduzir mensagens

Sobre seu caráter de narrar conflitos ou promover a cooperação e a ajuda ao desenvolvimento, se debatem nos próximos dias na Primeira Conferência de Fotografia Social, em Barcelona, organizada pela Fundación Vicente Ferrer
Por Pablo Linde

 

Houve um tempo em que se fazia “pornografia humanitária”. Crianças melancólicas e desnutridas rodeadas de moscas à espera de ajuda são o melhor exemplo. Eram as primeiras campanhas de ONGs, que consideraram essa tática a melhor para jogar com a fibra moral de seus potenciais doadores. Esse tempo já passou, diz Josep Giralt, chefe de comunicações no Vicente Ferrer (FVF) e dono da expressão citada acima. O processo de transformação tem sido lento, desde o início dos anos noventa, graças a uma variação na sensibilidade dos cidadãos e “uma auto-crítica” pela parte das organizações. Mas a imagem ainda é uma ferramenta poderosa para traduzir mensagens. Isto é o que está em discussão desde terça-feira passada, em Barcelona, ​​na Primeira Conferência de Fotografia Social organizada pelo Institut D’FVF e pelo Institut D’Estudis Fotogràfics de Catalunya.
Hoje não se busca a compaixão. O objetivo é contar a realidade. E nem sempre as mais tristes e miseráveis. Do outro lado desta meta há pessoas e, por mais óbvio que possa parecer, atuar com esta premissa serve para salvaguardar um resultado digno e profissional. Explicou o fotógrafo argentino Pablo Tosco, que trabalha para a Oxfam Intermón à seis anos: “Nós precisamos ter empatia legitima para que o outro permita ser retratado. Você não consegue o que as pessoas levam dentro de si em um instante, é essencial dedicar tempo.”

Paciência. Um termo que parece datado e quase incompatível com o ataque cibernético de informações que muitas vezes premia o mais rápido em vez do melhor. A tem cultivado como poucos Jane Evelyn, de 66 anos, mais de 40 com uma câmera, que se crispa à simples menção da Internet e a idéia de que suas fotos pululem pela rede sem controle. Ela, que dedicou uma década para retratar as mulheres na prisão, ela, que passou oito anos vivendo com prostitutas para retratar sua realidade, diz que alcançar intimidade com o fotografado é essencial para que o instantâneo seja sincero e poderoso. Evelyn, cujo trabalho serviu para banir algumas práticas abusivas de penitenciárias americanas, é muito cética quando perguntada se se pode mudar o mundo com a imagem. “Me conformo de que as pessoas sejam conscientes do que está acontecendo, de mostrar-lhes o que de outra forma não conheceriam. “E dá o exemplo de um dos projetos que mais lhe marcaram: os últimos meses da vida de Jean-Louis, um dos primeiros europeus que, no final dos anos oitenta, deram face a AIDS, uma doença tão assustadora, tabu e em grande parte desconhecida. Ela viveu com ele durante semanas para contar que ele era “uma pessoa”, que pessoas com AIDS “existiam e poderiam ser qualquer um.”

E um conceito tão abstrato e belo como o conceito de empatia tem que ser apoiado com algo tão concreto e desagradável quanto a burocracia. Juan Carlos Tomasi, fotógrafo do Médicos Sem Fronteiras, testemunhou inúmeros conflitos em todos os cantos do mundo no último quarto de século, empunhava alguns papéis na mão direita: “Sem isto não podemos fazer nada.” Eram formulários de autorização que utiliza sempre que retrata pessoas com estigmas sociais (doenças, as vítimas de abuso ou exploração …).

A premissa é que o anonimato e a dignidade não valham menos em alguns continentes do que em outros. E que a indignidade não venda mais que a riqueza cultural, disse Juan Alonso, documentarista da Fundação Vicente Ferrer, que acredita que mostrar o cotidiano daqueles que se quer ajudar deve ser a aspiração de qualquer organização. Giralt, nesta linha, se mostrou autocrítico com o imaginário que se criou a respeito dos países em desenvolvimento. “Agora nos perguntamos o porquê de cada foto, debatemos à exaustão qual é a mais adequada, temos superado o paternalismo e o eurocentrismo na hora de mostrado que acontece no mundo, porém, é um processo diário que continua. Todavia, há quem faça espetáculo e busque audiência com o sofrimento alheio, como o programa de Toñi Moreno na Televisão Espanhola”, reflete.

As catástrofes, os acontecimentos, são o terreno ideal para se cair nestas práticas, até mesmo para os profissionais que estão cientes de que devem dar o exemplo contrário. É o exemplo de membros da Groundpress, um coletivo de fotojornalistas centrado em questões sociais. Foi o que aconteceu com as revoltas mineiras de 2012, como explica Arianna Gimenez, uma de seus membros: “Fomos dois de nós passar algumas semanas com os mineiros e quando voltamos para selecionar o material nos demos conta que só tínhamos pneus queimados. Eles existiam e devíamos mostrá-los, mas dávamos a sensação de que um miniero é uma pessoa que se dedica a montar barricadas e a atirar pedras, sem darmos conta do conflito que havia por detrás disso contribuindo para o clichê”. Como seu objetivo era justamente fugir dele, voltaram a passar um mês com os mineiros para buscar outros ângulos.

A maioria dos que participam destas jornadas concordaram em auto aplicar-se uma frase de Ryszard Kapuscinski: “Para ser um bom fotojornalista é preciso ser uma boa pessoa”. Publicar imagens sem se envolver, sem tomar partido, inclusive, se resulta quase impossível. Isso é levado ao extremo pelo romeno Mugur Varzariu, para quem a câmera é uma mera ferramenta de câmbio, como o é qualquer outra, como a política. Com 44 anos, tem apenas quatro dedicados à fotografia e depois de algumas incursões à realidades distantes de seu país, ele percebeu que não tinha que sair de suas fronteiras para encontrar injustiças. É um porta-estandarte para a defesa das comunidades ciganas, um grupo abusado e discriminado em muitos lugares na Roménia. Ao contrário de Jane Evelyn, está convencido de que as coisas podem mudar. E orgulha-se: “Eu sou o inimigo público número um dos políticos em muitas cidades do meu país. Através de minhas fotos tenho conseguido mobilizar pessoas e ONGs que não estavam fazendo nada para impedir os despejos e melhorar a vida de muitas pessoas. Eu, uma única pessoa.”

Dar voz a quem não a tem, essa é a ideia com que concordaram a maioria dos oradores. As transformações e melhoras, se acontecerem, serão feitas depois. Primeiro há de se fazerem visíveis os problemas.

 

Publicado originalmente por Pablo Linde, via EL PAÍS

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O olhar fotojornalistico de J.B. Segundo

O olhar fotojornalistico de J.B. Segundo em P&B me cativou. Meu olhar sobre fotojornalismo é suspeito, sempre amei fotografia documental mesmo antes de me definir na profissão, e mesmo hoje em dia, acompanhando de perto o processo de captura dessa categoria de imagens, ainda acabo ficando presa ao processo de primeiridade semiótico. Mas as imagens de J.B. Segundo não ficam, nem um pouco presas a somente olhares imaturos e apaixonantes, qualquer olhar se prende nessas fotografias que tanto têm a falar.

Cada fotografia traz a sua história individual, seu contexto social e um belo enquadramento. J.B. Segundo tem um olhar magnífico nesse sentido, construindo e descontruindo o seu olhar a partir do que o externo lhe proporciona, do que a vida lhe mostra. E ele absorve muito bem todos esses contrastes em um lindo P&B. Posso dizer que J.B. Segundo conquistou meu olhar, que fica preso por alguns minutos refletindo sobre o mundo e criando outras histórias, outros olhares a partir de cada fotografia.

Agora passo a bola para você me dizer o que acha dessas lindas fotografias.

Contato/Contact

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Suspeição / Suspicion

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Expedicionários / Expeditioners

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O Artesão / The Craftsman

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A mulher descalça / Barefoot Women

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Repouso da canoa / Resting of canoe

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Burroughs, Lynch and Warhol

Três mostras simultâneas na London’s Photographers’ Gallery (eu também gostaria estar lá) exploram as imagens de três artistas famosos em outras mídias. Do diretor multimídia David Lynch, à Andy Warhol e (o escritor) William Burroughs.

William Seward Burroughs II, nascido em 1914 no Missouri, USA, foi um escritor contemporâneo à [Charles] Bukowski e, junto com este, deu a base e abriu caminhos à Beat Generation que estava por vir no fim dos anos 50. Seu magnum opus foi o romance “Junkie”, cujo enredo retratava o submundo das drogas e da homossexualidade, a partir de suas próprias experiências, não deixando de ser também uma cruel crítica social à ordem vigente na américa do pós guerra, como toda a contracultura da época. O livro, porém, sofreu com a censura em diversos países até não muito pouco tempo atrás. Além de escritor, Burroughs também se envolveu com a música, tendo participado de álbuns de diversos artistas, e pintura.

William S. Burroughs, Jack Kerouac, Tangier, 1957

Jack Kerouac, Tangier, 1957

Unknown Photographer, Burroughs in the Villa Mouniria Garden, Tangier

Burroughs in the Villa Mouniria Garden, Tangier

William S. Burroughs, Midtown Manhattan, 1965

Midtown Manhattan, 1965

William S. Burroughs, Untitled, c1972

Untitled, c1972

William S. Burroughs, Untitled, 1975

Untitled, 1975

Ian Sommerville, Infinity, Paris (Beat Hotel), 1962

Untitled, 1975

Uma vez perguntei a uma mulher se ela conhecia Andy Warhol, ela me respondeu que não. Se não fosse por [Marcel] Duchamp, penso eu, e Andy Warhol, as artes plásticas não seriam nada do que são hoje. La Fontaine de Duchamp deu o primeiro pontapé rumo a uma arte voltada ao cotidiano industrial e suas implicações, que começavam a se tornar a cara da sociedade moderna. Mas foram Andy Warhol e a arte pop, da qual ele foi o máximo expoente, os responsáveis por elevar o artista ao patamar de celebridade, e expor a arte a sua reprodutibilidade.

Warhol foi pintor, ilustrador, cineasta, fotógrafo e agitador cultural. Conhecido principalmente por suas serigrafias, filmou um sem número de curtas, médias e longas metragens experimentais de temas banais, como um plano seqüência mudo em preto e branco do edifício Empire State Building, de mais de oito horas, filmado continuamente e em câmera lenta. Seu estúdio, “The Factory”, foi responsável por alçar nomes como [a banda] The Velvet Underground, [o fotógrafo] David LaChapelle e [o pintor] Jean-Michel Basquiat.

Quanto às suas fotografias, além das apresentadas aqui, de cunho mais experimental, Warhol possuía um enorme acervo de polaroids com temas cotidianos, encontros, festas e auto-retratos.

Andy Warhol, Buildings,  1976-1987

Buildings, 1976-1987

Andy Warhol, Gay Pride, 1976-1987

Gay Pride, 1976-1987

Andy Warhol, Jerry Hall, 1976-1987

Jerry Hall, 1976-1987

Andy Warhol, People in the Street, 1976-1987

People in the Street, 1976-1987

Andy Warhol, People in the Street, 1976-1987

People in the Street, 1976-1987

Andy Warhol, Young Man holding a Glass, 1976-1986

Young Man Holding a Glass, 1976-1986

Eu imagino se existe algum campo que David Lynch ainda não tenha explorado. Além de cineasta e diretor de televisão, produtor, escritor e artista visual, (me corrijam se faltar alguma ocupação) ocasionalmente atua e tem sua própria casa noturna exclusiva em Londres. Quanto a nós, ficaremos felizes se conseguirmos fazer metade disso na vida. Mais conhecido por seus filmes de ambientação experimental como Blue Velvet e Eraserhead, Lynch foi antes um pintor, tendo produzido inúmeros trabalhos, compôs oito álbuns de música eletrônica (que contam com videoclipes não menos estranhos) além de estar envolvido em diversos projetos, muitos deles ligados a seus filmes. Como designer, fez móveis, assim como também concebeu o desenho de sua casa noturna “Silencio”, inaugurada em 2011.

Tudo que David Lynch concebe, contém sua estética própria, sombria e confusa. Assim não poderiam deixar de ser suas fotografias.

David Lynch, Untitled (England), late 1980s early 1990s

Untitled (England), late 1980s/early 1990s

David Lynch, Untitled (England), late 1980s early 1990s

Untitled (England), late 1980s/early 1990s

David Lynch, Untitled (Lodz), 2000

Untitled (Łódź), 2000

David Lynch, Untitled (Lodz), 2000

Untitled (Łódź), 2000

David Lynch, Untitled (Lodz), 2000

Untitled (Łódź), 2000

 

[via The Guardian]

A fotografia etnográfica documental de Dori Caspi

A fotografia etnografica consiste no registro documental cuja participação inloco do fotógrafo é imprescindível para o trabalho final. A união da documentação participativa com a fotograda é o que da consistência ao resultado desse tipo de registro. O fotógrafo Dori Caspi  conciveu durante 10 anos com a tribo Himba (africana) que está prestes a desaparecer, registrando seus costumes, suas intimidades, seu cotidiano.

Durante todo esse tempo, Caspi, o fotógrafo israelense criou um vínculo com cada integrante do grupo, criou um vúnculo com a sua história. A sua câmera acabou servindo (apesar de nunca ter sido seu objetivo principal, conta) como ferramenta de pesquisa, antropológica. Hoje, essa tripo sobre seu desgaste territorial com estradas sendo contruídas e desgastes fisiológicos enfrentando doenças como AIDS.

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Pela pouca experiência que tenho com a fotografia etnográfica, imagino o quão grandioso e enriquecedor (no melhor dos sentidos)  é e foi para o Dori Caspi ter tido ao participar como ferramenta de valorização dessa etnia que pode ficar para sempre somente gravado na história. Seu olhar subjetivo é o que marca e valoriza e se mistura por toda essa história.

Conheça as fotografias de rua do fotógrafo Thomas Leuthard

Além de muitas outras coisas, a fotografia é uma forma de expressar sentimentos e ideais de quem vê, de quem opera a câmera, ou seja, do fotógrafo. Podemos interpretar, ou até analisar mais profundamente (levemente redundante mesmo) um olhar, os sentimentos e até um caráter de um fotógrafo, através de suas imagens, vamos ver no que dá se analisarmos as fotografias de rua Thomas Leuthard.

Antes de qualquer coisa, mesmo que aqui, estamos nos tratando de inspirações, podemos aproveitar para perceber as manifestações da fotografia, como ela opera em nossos sentimentos e o quão é importante como uma ferramenta. Detalhes que durante o dia corrido de cada pauta, ou cada job, não paramos para refletir ou simplesmente observar a própria ação.

Thomas Leuthard é um fotógrafo que já viajou muita grandes cidades, que viajar o mundo em busca de coisas importantes, em busca de sua paixão. Mas o que é importante para ele? Porque não vemos prédios e mais prédios, e carros, e movimentos de rua como geralmente vemos? O que me chamou a atenção no trabalho de Thomas (íntima) é o seu olhar específico, são seus valores.

Pessoas normais, passeando pelas ruas, pés, mãos, corpos, olhares, pessoas sozinhas, pessoas acompanhadas se sentindo sozinhas, pessoas indefesas, pessoas fortes, com reações, com sentimentos, com afinidades, com liberdade. Mas vemos situações que ele observou nas ruas de cidades grandes, que ele nem fez questão de legendar indicando por onde esteve. Situações com conteúdo, com estética, com significados. E tudo muito bonito de se ver, são inspirações para nossos olhos.

Vamos nos inspirar com essas fotografias de rua?

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Roda Viva com Sebastião Salgado

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Sebastião Salgado é com certeza um dos mais importantes fotógrafos brasileiros. De quando trabalhava para a legendária agência Magnum, alçou ao reconhecimento internacional ao ser o único fotógrafo a documentar o atentado ao então presidente dos EUA, Ronald Regan. A partir daí se transformou em um dos principais fotojornalistas em atividade no mundo, instantaneamente reconhecível por seu denso P&B, ganhou prêmios diversos e lançou ao todo 11 livros. Salgado acaba de lançar seu último livro intitulado “Gênesis”, resultado de oito anos fotografando em diversos lugares do planeta, que já se encontra na quinta reimpressão.

Com certeza vale a pena parar para ouvir o que ele tem a dizer.

 

http://www.youtube.com/watch?v=IL3Ou7Khl3A

 

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[via cmais+]

O Olhar Fotográfico nada quantificado

E por todo caminho que passo procuro um mestre para me direcionar para o caminho certo, nessa minha atual jornada de fotojornalista tive a sorte de encontrar dois grandes mestres, cada um com seu jeito bem definido. Um deles, enquanto contava uma de suas longas histórias cheias de ensinamentos, alertou a quem estivesse por perto que o que faz uma fotografia ser diferente uma da outra é o olhar. Eu sei que você já sabia disso, assim como eu, mas se você não estiver praticando o seu olhar, estiver apenas reproduzindo o que todos fazem, de nada adianta o saber.

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Não é simplesmente o saber que está em jogo, mas a percepção da grandeza que isso representa. Quando falamos de olhar, não falamos apenas de um olho em direção a um objeto/coisa/pessoa/situação, estamos falando de toda uma história cheia de pequenas histórias que todas juntas carregam características ao perceber situações diferentes. É tão subjetivo que pode até ser considerada, muitas vezes, uma atividade inconsciente.

A luz que você prefere, as aberturas que escolhe, os ângulos, os cortes, os enquadramentos, as cores, ou a ausência de cor, não são escolhidas por acaso, são técnicas que cada fotógrafo vai desenvolvendo ao longo de suas experiências fotográficas com a interferência direta da sua subjetividade, nascendo um estilo. Imagens que comunicam não só um fato acontecido, mas sim que mostram um olhar sobre algo que aconteceu. Isso é tão grandioso e tão banal.  A prática desse olhar sem preparo algum todos os dias com milhares de câmeras de todos os portes parecem diminuir o valor que tem de um olhar profissional, um olhar aprimorado, uma subjetividade treinada.

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É sempre uma luta ao quantificar um trabalho que você mesmo procura adicionar diferenciais a todo o instante, quando na verdade a sua subjetividade que deveria pesar ao diferir de todo o resto do mercado de trabalho. São dois pesos e duas medidas, duas questões que andam em lados opostos, mas que precisam uma da outra. Precisamos de dinheiro para sustentar nos sustentar e sustentar nosso trabalho, equipamentos, etc, da mesma forma que precisamos da valorização do nosso olhar que dinheiro nenhum paga.

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É aí que entra a problemática que os fotógrafos mais éticos se preocupam:  Não posso cobrar tão caro, mas também não posso cobrar barato – Esse trabalho merece uma valorização melhor –  Aquele freelar não valeu a pena para meu portfolio, mas pagou minhas contas do mês – Como posso fazer para me promover sem virar escravo da massa mercadológica? Questões que muitos se perguntam, e procuram superar todos os dias. Quando tudo gira em torno de uma única questão – O Olhar.

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Quando conseguirmos superar a crise do Olhar, encontrando a devida valorização, seremos vencedores, e o troféu chama-se subjetividade.

Fotojornalismo militante

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Arrisco dizer que hoje, o principal suporte de comunicação na era pós-moderna é a fotografia jornalística.

O mundo é imagético, aprendemos a conhecê-lo por suas representações antes mesmo de aprender a falar, na infância, e o estímulo visual vem sempre antes do verbal. É comum ler uma revista ou manchete de jornal por ter-se interessado pela imagem que a ilustra, porque a imagem vem sempre antes da palavra, e a exemplo do que foi dito aqui toda imagem jornalística acompanha ou vem acompanhada por uma legenda que assume o papel de elo de ligação entre espectador e acontecimento.

No princípio, as recentes manifestações foram recebidas com conservadorismo. A mídia tradicional na tentativa de desmoralizar a revolta popular caracterizando manifestantes como vândalos e baderneiros e os jornais divulgando imagens de violência. Uma semana passada e a máscara caiu, esta mesma mídia, com a verdade estampada que circulava em massa na internet e tendo muitos de seus profissionais, jornalistas e fotógrafos, feridos pela polícia militar em um episódio ditatorial de repressão, foi obrigada a mudar seu discurso. Começaram a ocorrer fotografias de ruas tomadas e cartazes de repúdio a violência.

O que é interessante discutir sobre os fatos recentes é que a fotografia jornalística difundida pelos meios tradicionais de comunicação, assim como o vídeo, pela televisão, tem como objetivo fundamental atestar a realidade que se apresenta, pois tem a propriedade de pressupor a verdade. Esquecemos, entretanto, que a fotografia mente. Ela representa a realidade de acordo com o interesse do fotógrafo, ou, neste caso, da posição política do meio ao qual está veiculada. E isto ficou claro durante os protestos de junho. Nós fotógrafos podemos optar por um enquadramento em detrimento de outro, dependendo de nossas intenções, e assim manipular a opinião de outras pessoas sobre um assunto, se assim se quiser. Cabe a nós decidir qual a verdade a ser contada. A fotografia como representação jamais poderá conter toda a verdade.

O que estranhamente a mídia tradicional não previu é que os próprios manifestantes pudessem contar sua versão, pela internet, com celulares e câmeras à mão e um poder de alcance mundial. Estes fotojornalistas, profissionais e amadores, conseguiram virar a opinião pública a seu favor, introduzindo luz sobre a unilateralidade de informação, coisa antes impossível. A mídia caiu, como também caiu a ilusão de que o Brasil é um país desenvolvido, economicamente estável e que sua população está satisfeita com o país em que vive.

Fique a vontade e conheça Nair Benedicto

Confesso que tem pouco tempo que conheci, pesquisei e me aprofundei na história e biografia de Nair Benedito. Não se sinta mal se você até agora não tiver conhecido ainda, Nair (íntima), apesar de ser extremamente importante para a história da fotografia no Brasil, é super discreta sem se preocupar em fazer ações de divulguem seu nome e suas fotografias (ao menos esse foi o principal motivo que me fez sentir melhor).

Fique a vontade, tome um café e conheça Nair Benedicto

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Nair Benedicto é uma comunicadora por excelência. Ponto. Apenas esse comentário já seria o suficiente para explicar o poder de comunicação de toda a sua obra. A paulistana se dedicou aos estudos das mídias de massa, se formando em Rádio e Televisão na Universidade de São Paulo (1972), se dedicando em tempo integral a prática de fotografar um tempinho depois.  E logo na época d BOOM dos meios de comunicação, Nair Benedicto estava se envolvendo na área mas promissora de todos os tempos. Em 1979 fundou a agência f/4 de Fotojornalismo juntamente com seus amigos Juca Martins, Delfin Martins e Ricardo Malta, tempos depois a fotógrafa muda o foco, deixa f/4 e funda N Imagens, onde está até os dias de hoje.

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Esse N Imagens foi o principal nome que abriu as portas, dando suporte para que Nair Benedicto pudesse realizar todas as suas vontades envolventes com a (linda) fotografia. Foi exatamente com esse N Imagens que ela acabou fundando juntamente com seus colegas e amigos de trabalho Stefania Bril, Marcos Santilli, Rubens Fernandes Júnior e Fausto Chermont o NAFoto (Núcleo de amigos da fotografia) que é o principal responsável pelos maiores eventos e concursos de fotografia em São Paulo até hoje.

Dá para perceber (principalmente pelas suas fundações) que o envolvimento com a fotografia de forma social é dos fortes da fotógrafa. E continuando com essa história linda, de forma singela e discreta, ela já merece ser citada quando formos falar da história da fotografia aqui no nosso país. Além desse tipo de envolvimento, existe o envolvimento documental fotográfico da Nair (sempre íntima) com seus objetos de estudo como índios, sem terra, e principalmente a questão da valorização da mulher na sociedade brasileira (e foi por este motivo que ela foi comissionada pela Unicef para documentar a situação da criança e da mulher na América Latina nos anos de 88 e 89).

E é claro que eu não tenho como deixar de comentar que todo esse seu lindo trabalho foi muito bem visto lá fora, como no Museum of Modern Art, NY, que já recebeu e expôs fotografias de Nair mostrando a questão cultural como um todo do nosso país. O que é muito grandioso não só para a própria autora/fotógrafa, mas principalmente para nós.

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Como eu sempre: Conhecer a história e se aprofundar nas inspirações de outros fotógrafos e fotógrafas, sempre nos deixa mais fortes, corajosos e, claro, com uma base melhor para seguir em frente.

Boris Kossoy, fotógrafo

O Fantástico sempre esteve contido na obra fotográfica de Boris Kossoy, segundo sua própria definição “todo registro é obtido a partir de um complexo processo de criação/construção do fotógrafo; portanto, trata-se de uma elaboração que tem o ficcional como componente constituinte – por natureza. A fotografia sempre se presta – ou é planejada – a atender determinados usos. Daí não ser um registro objetivo da realidade e, sim, suporte de um processo de construção de realidades: ficções documentais.” Em sua primeira publicação “Viagem pelo fantástico“, nos é apresentado o irreal em sua forma literal por meio de imagens que causam estranheza, a meu ver, não por seu conteúdo aparentemente surreal, mas paradoxalmente por sua natureza possível, que entra em conflito com este surrealismo por meio da característica essencial de toda fotografia como registro da realidade – dada a presença do referente. Toma forma então o que vou denominar metalinguagem imagética, uma vez que o tema irreal da obra de Kossoy se encontra representado por um suporte que em sua natureza, na verdade, não reproduz de forma fiel a realidade, mas a interpreta, ja que “a vida não são detalhes significativos, instantes reveladores, fixos para sempre. As fotografias sim”.

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Kossoy foi também fundador do Grupo Photo Gallery, reunindo fotógrafos de diversas áreas a fim de criar um Mercado da fotografia, ainda insípido no Brasil na década de 70: “Nosso projeto era o de criar um mercado para a aquisição da fotografia como objeto de arte, uma proposta que tinha um fim educativo de demonstrar a importância da fotografia como forma de expressão.”

Posteriormente porém, Kossoy passa a buscar o componente fantástico oculto na realidade em oposição à representação plástica de “Viagem pelo fantástico”.

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“Para mim o fantástico continua naquele senhor sentado em um banco no parque que remete ao filme Blow up. O fato de ele não saber que tirei essa fotografia – provavelmente já morreu e nunca a viu – mas continuar vivendo na imagem remete à ideia de outras vidas, de outros mundos.”

Também torna evidente em suas “Cenas de Nova Iorque” o interesse pela arquitetura, profissão na qual é formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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Boris Kossoy cenas de new york

Já em “Cartões Anti-Postais“, se interessa em retratar uma realidade não ideal do Brasil, em oposição à um país que sustentava um ideal de beleza ufanista durante o regime militar.

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Como visto nos ensaios anteriores, o fantástico deixa de ser o tema da fotografia de Boris Kossoy e passa a fazer parte da sua estética. É preciso atentar à livre associação que nos apresenta o fotógrafo, quando justapõe, numa mesma imagem, elementos conflitantes, como uma cena encontrada ao acaso, porém, devidamente produzida para causar ao espectador um sobressalto. Sustentado pela interpretação da realidade proporcionada pela imagem fotográfica, o artista Kossoy situa sua fotografia num ponto de vista extremamente particular que nos induz a pensar naquela “ideia de outras vidas, outros mundos”, o mundo-imagem que, fazendo alusão a nossa realidade, conserva sua própria ordem.

Boris Kossoy nasceu em São Paulo, 1941, e durante quase 50 anos se curvou sobre a problemática da fotografia sendo conhecido sobretudo por suas publicações teóricas que contam mais de uma dezena, entre eles “Realidades e Ficções na trama fotográfica” (Ateliê Editorial 2002), “Os tempos da fotografia, o efêmero e o perpétuo” (Ateliê Editorial 2007) e “Fotografia e História” (Ateliê Editorial, 2001). É atualmente professor titular de Pós-Graduação na Universidade de São Paulo e membro do Conselho Consultivo da coleção Pirelli-Masp, além de continuar seu trabalho como Pesquisador e Historiador na área de Fotografia.

KOSSOY, Boris. Em entrevista para o jornal O Globo, Setembro, 2010.

SONTAG, Susan. Sobre Fotografia, Companhia das Letras, 2004.

KOSSOY, Boris. Em entrevista para a revista Digital Photographer Brasil, Março, 2012.